quarta-feira, 19 de maio de 2010

Atalhos


Eu meio que não entendo, não costumo passar por atalhos a não ser que eu os conheça muito bem, sinto que nunca vale a pena o risco, tenho tanto medo do perigo que prefiro pouco sair de casa. Por isso ainda não entendo, se em cada caminhada uma curva errada pode me dá um outro destino, quando planejo tudo com muito cuidado, não admito percorrer pelo caminho errado, procuro eu mesmo criar meus atalhos. Ora, lembro-me de ter fugido uma vez, não lembro de onde saí, não lembro para onde ia, só sei que fugi, correndo por atalhos que nunca achei que fosse precisar usar, correndo por atalhos que me fizeram pensar, só que infelizmente esqueci e, se pensei, não pensei em nada que pudesse aproveitar. Creio que faz sentido não querer entender, até porque, entender pra quê se vou esquecer, deletar... Não entendo pensamentos que me fazem refletir; reflito por alguns segundos e depois volto ao normal. No meu curso, recurso, não me permito atalhos. Como também não me permito imaginar demais, imagino apenas o suficiente, necessário. Nem na minha mente percorro atalhos, o risco de arriscar me leva a planejar, sempre planejo o literal, o real, o que de fato existe, não penso num mundo perfeito, bom, ruim ou triste, deixo ao tempo, para que o passar do tempo mude o que lhe for preciso, afinal, nem o tempo pega talhos. Por fim, atalho, para quê? Não seria melhor percorrer o inteiro, o caminho todo? Para que no erro não haja a frustração de um mau atalho no meio do caminho.


Samuel S. de Freitas

Texto escrito em:
14/05/2010

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Escrever...


Não sei se é difícil escrever, contudo, sei que muitas vezes dói na alma, arde, cansa, desgasta corpo, mente e espírito como nenhum exercício físico seria capaz de fazer. Porém, ainda assim, será que é tão difícil escrever, ou, escrever para quê? Por quê? Com que sentido, com que intenção, com que prazer...

Muitas vezes não há um porquê para escrever, manter riscado num papel uma dor que se queria esquecer, no entanto, mesmo assim ainda escrevo. Penso que não escrevo bem, penso que nunca escreverei bem e, sinceramente, pouco importa, não vejo necessidade de agradar um eventual leitor ou um curioso qualquer que não tenha o que fazer, ferre-se quem lê, não obrigo nem nunca obriguei ninguém a nada, quanto mais a gostar das porcarias que ponho num papel, pois idiotice por idiotice, já basta o que se vê, se lê, se assiste, já bastam as sandices em que a humanidade se acostumou a gostar. Então, para quê mesmo escrevo? Para mim, só pra mim, pois não quero ser José de Alencar, Clarice Lispector ou Machado de Assis...

... Não quero ser sumidade nem aqui nem em outro lugar qualquer. Se minha escrita fosse suave, se minhas lágrimas escrevessem ou se simplesmente eu não soubesse, não pudesse, não quisesse, se simplesmente eu fosse simples, se eu decorasse, sem vocação, sem talento, sem noção. Se minha inspiração fosse improdutiva, se ela meu ego não inflasse e, finalmente, se eu meu tempo não perdesse, mas de se em se insisto em insistir, sendo óbvio, piegas, repetitivo, só escrevo dor, amor, maluquice, porém e se minhas palavras não existissem, enfim é se demais para a realidade realizar. Peço a Deus que me ajude a pensar menos, pois acredito que pensar estraga, gera noção demais, erro demais, por isso que dói tanto quando penso para escrever, quem dera pudesse escrever sem pensar, escrevo como um "bom" parnasianista pondo tudo no seu devido lugar, quem dera não ser tão específico e fugir, mudar, inventar, criar algo nunca antes criado, em meu mundo só pra mim, não quero que ninguém leia, meu escrever, por mais doloroso que seja, nada mais é que meu escrever.

Às vezes penso em alguém para ser minha referência, outras vezes nessas mesmas vezes penso em criar uma lata de lixo bem grande para poder depositar "grandes pensadores e escritores" da história da humanidade, talvez lá seja o meu lugar, todavia, já que nunca sou lido, quem poderá me descartar, meu ego não é assim tão sincero comigo, meu ego, nem para me alertar ele serve. Mas, enfim, quem devo ter como referência, Clarice Lispector em suas eternas dores de parto para gerar um livro; Machado de Assis, tão ateu, tão à toa, tão crítico e esculhambador da raça humana; José de Alencar em seus amores utópicos e devaneiados; alguém?

... Mais alguém escreve bem? E, o que é mesmo escrever bem? Mais uma pergunta que não sei responder, talvez escrever doa em todo mundo, certamente não é uma exclusividade minha, nunca foi, nunca será eu nem mesmo consigo criar, apenas imito alguém, mesmo que eu não saiba quem, é apenas a dor que eu quero copiar, por isso, escrevo, tantas vezes que nem eu mesmo leio, dói até ler, pois são as palavras criadas que mais ardem.

Enfim, apenas mais um texto, que já doeu, que já me fez agonizar, na agonia de uma dor que remédio nenhum pode curar, e mesmo assim, não vou parar, não posso, não quero, não há outra coisa que eu saiba fazer, só sei escrever, se bem ou se mal, e daí, é o que sei fazer, só que às vezes só preciso entender, como começar, de onde começar e começando, para onde ir, como ir, por que ir, para nunca machucar o papel em vão, para nunca me machucar em vão, nesse esforço, meu esforço, já que dói tudo, dói muito, contudo, ainda assim tenho prazer. Peço a Deus que me perdoe e que me re-ensine a escrever, peço a Deus que faça parar de doer, para que meu prazer possa ser pleno, natural e que meu talento possa de fato florescer, tão somente para poder ouvir a voz da inspiração e deixá-la me conduzir por um caminho sem volta, se comecei a escrever, não pararei de escrever, escreverei até morrer, só peço a Deus que isso demore a acontecer. Amém!



Samuel S. de Freitas
Texto escrito em:
30/04/2010
às 09:58.35s